Isso lá é trabalho?

On 18 de abril de 2013 by Max Valarezo

Na Roma Antiga, utilizava-se um aparelho de tortura que consistia em uma espécie de tripé formado por paus de madeira, onde escravos eram punidos. O aparato se chamava tripalium, do latim tri (três) e palium (pau), ou seja, “três paus”. É aceito por muitos linguistas que o termo tripalium deu origem à palavra “trabalho”, o que apenas mostra como essa história de ter uma obrigação diária para fazer dinheiro sempre foi visto como algo super bacana.

Brincadeiras à parte, convenhamos que existem certos ofícios que muita gente gostaria de exercer, pelo simples fato de parecerem qualquer coisa que não seja justamente um trabalho. Quantos fãs etílicos não gostariam de ser provadores em uma grande cervejaria? Quantos jogadores de bola no fim de semana ainda não sentem uma ponta de vontade de serem profissionais do futebol? Pois bem, tem um trampo que, pra mim, se encaixa nessa categoria de labuta: ser crítico de jogos de videogame.

O engraçado é que, devido a essas incríveis sortes que a vida nos joga, essa é justamente uma das minhas tarefas profissionais hoje. Não ouso, de maneira alguma, me chamar de crítico de games. Mas a verdade é que, desde o início do ano, escrevo reviews de jogos para o Correio Braziliense. Pra inveja de…bom, quase todo mundo pra quem eu conto isso, apesar de (praticamente) nunca ser minha intenção causar esse sentimento nos outros.

Basicamente, funciona assim: eu recebo um jogo, fico com ele durante duas semanas e depois tenho que escrever o bendito texto sobre o que achei do game. Tudo muito divertido, mas a verdade é que não é uma tarefa tão simples assim.

 

"Droga, mulher! Assim não consigo fazer meu trabalho direito!"

“Droga, mulher! Assim não consigo fazer meu trabalho direito!”

Minúcias

Que fique bem claro: o que vou dizer a seguir não são reclamações. Caramba, eu tô ganhando dinheiro para jogar videogame, meus amigos. Essa não é minha única ocupação, que fique bem claro, afinal, ainda devo escrever outras matérias sobre diversos assuntos, entre outras coisas. Mas existem questões nesse trabalho que, para quem é preocupado em fazer um review coerente e que realmente acrescente algo à discussão em torno do título, podem deixar o autor frustrado. O que vou fazer aqui é explicar melhor como funciona essa história de resenhar jogos e que aspectos práticos estão envolvidos nessa tarefa.

Em primeiro lugar, tem o grande antagonista: o tempo. Não que o trabalho de críticos de cinema ou de música seja mais fácil, mas é inegável o fato de que assistir a um filme ou escutar um disco do início ao fim raramente toma mais do que duas ou duas horas e meia. Enquanto isso, jogos considerados curtos têm duração de aproximadamente 10 horas. Certos títulos precisam de mais de 50 horas para serem completados, enquanto outros parecem não ter fim (alô, Skyrim). É verdade que, no Correio, temos a liberdade de escrever sobre um jogo feito para smartphones/tablets, esses sim muito mais curtos e simples. Mas, na maioria das vezes, trabalhamos com games de consoles mesmo.

“Ah, mas você não acha preciosismo demais querer zerar o jogo todo para poder escrever sobre ele? Não acha que basta jogar algumas horas e pronto?” Não, não acho. Críticos de cinema não levantam no meio de uma sessão e partem para o computador a fim de resenhar o longa metragem. Os games, como obra de arte que são, merecem serem contemplados em sua integralidade para serem “julgados” de forma apropriada.

Mas quem disse que um universitário, com aulas pela manhã, com estágio à tarde no jornal e com as horas que sobram para fazer os trabalhos da faculdade, consegue dispor de tanto tempo para zerar todo jogo que lhe entregam? Até porque não dispomos de TV com Playstation 3 ou Xbox 360 na redação, o que significa ter de testar os games em casa, quando eu tiver tempo.

A extensão dos jogos inclusive sugere que, talvez, o formato clássico de resenha não seja o mais apropriado para falar de games. O jornalista Erik Kain, que escreve para a Forbes, por exemplo, já fez experimentos em que escrevia uma série de textos para resenhar um só título, ao analisar trechos específicos. Segundo ele, seria mais ou menos como a crítica de séries de TV, que costuma analisar episódio por episódio.

Mas a verdade é que nem sempre o autor vai ter tempo para jogar com tamanha profundidade um game. Ou então nem sempre os leitores vão ter paciência para lerem mais de um texto sobre um mesmo título. A análise que Kain faz sobre o assunto em um texto no site da Forbes, inclusive, é muito interessante, vale a pena ler.

Meu primeiro review publicado no Correio Braziliense, Metal Gear Rising: Revengeance

Meu primeiro review publicado no Correio Braziliense, Metal Gear Rising: Revengeance

 

Ah, se todo game fosse excelente…

Outro detalhe que pode passar despercebido para quem olha de fora: quem foi que disse que todo game é bom e divertido? No jornalismo que analisa outras artes, o autor de resenha ou de crítica acaba se deparando com obras ruins ou medíocres, e com videogames não é diferente. Até agora, porém, tive a sorte de só pegar jogos bons ou, ao menos, bem legais (Metal Gear Rising: Revengeance, Borderlands 2, Anarchy Reigns, por exemplo).

Existe também a possibilidade de você não gostar do gênero de jogo, mas ter que reconhecer que o título é bom. Foi o que me aconteceu com a resenha de Borderlands 2. O game é ótimo, mas, a bem da verdade, nunca fui fã de jogos de tiro em primeira pessoa (talvez com a exceção de Time Crisis, êta jogo legal de se jogar no arcade). Como não era meu tipo, Borderlands se viu resenhado por um cara que tinha que se obrigar a sentar na frente da TV para testá-lo, sem muita empolgação. Mas, apesar disso, não pude deixar de reconhecer o trabalho de arte excelente, o roteiro hilário e a mecânica interessante.

Mas poderia haver outros fatores na jogada (com o perdão do trocadilho). Só posso agradecer pelo fato de as páginas de jornais impressos ainda não terem seção de comentários. Porque, convenhamos, fãs babões de videogame conseguem ser dos mais ferrenhos, infantis e agressivos com as palavras. É como da vez em que falei a um dono de uma loja de jogos aqui em Brasília que estou escrevendo resenhas pro Correio: “ah, então é em você que devo dar umas porradas?”. De acordo com ele, muitas vezes as críticas do Correio “ficam iguais” a de uma revista específica. O comentário pode até remeter à interessante questão das opiniões iguais e de textos muito parecidos, que não agregam pontos novos à discussão. Mas dizer que vai “dar umas porradas” não me parece o jeito mais apropriado de se tratar um cliente.

Borderlands 2: não é meu tipo de jogo, mas o trem é bom

Borderlands 2: não é meu tipo de jogo, mas o trem é bom

Além da jogatina

A verdade é que, pra mim, essa história de fazer resenha de games é muito mais sério do que muita gente pode pensar. Envolve muitos aspectos interessantes sobre consumo, arte, relação jogador-obra, etc. Exige do jornalista tempo, conhecimento sobre o funcionamento da indústria, bom repertório sobre jogos e noções sobre a história dos videogames. Não se trata de apenas sentar, apertar uns botões e depois dizer “esse título é legal/chato”.

Sem contar que o jornalismo de games tem despertado reflexões muito interessantes no que diz respeito a integridade jornalística e ética, mas isso é assunto para outro texto. Aliás, desde já me comprometo a escrever outro post, mas pra falar especificamente sobre o ato específico de resenhar um jogo, focando mais em questões de reflexão do que em aspectos práticos, como fiz aqui.

Outro dia, alguém postou no Facebook uma imagem que perguntava “a criança que você foi teria orgulho da pessoa que você é hoje?” Olha, uma coisa é certa: o Max de seis anos morreria de inveja de mim agora ao saber o que tenho feito no estágio.

 

Momento propaganda

Para quem ficou curioso, fica aqui o jabá: toda terça-feira, o Correio Braziliense publica o caderno Informática, em que quase sempre tem um review de game. Então confira por lá, muito provavelmente vai sair uma resenha minha a cada duas semanas. Para identificar se o texto é meu, lá vai a dica: se ele não é assinado por ninguém, é grande a chance de eu ser o autor , já que estagiário não pode pôr o nome em matéria.

One Response to “Isso lá é trabalho?”

  • Klênia Magalhães Valarezo

    Filho, então não era brincadeira, era tudo trabalho ? 🙂
    Brincadeiras à parte, sou testemunha de quanto você tem se dedicado à noite e no final de semana.
    Só não posso opinar sobre os resultados por absoluta ignorância sobre o tema videogame.

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